Os Dois Monstros

Os Dois Monstros

Com quem eu falo
na hora em que os monstros gritam?
Quem eu devo chamar
quando suportá-los parecer impossível?
Quem escutará
um jovem falando de seus monstros?

Os monstros estão lá brigando
Os monstros estão lá gritando
O jovem está aqui se silenciando
No chão do quarto
Abraçado por si
Um calafrio percorrendo o corpo
Com quem falar?
Com quem falar?
Consigo mesmo


O jovem só queria se sentir bem. Não vou nomeá-lo porque o seu nome pouco importa, o que importa é a bagagem, é o contexto em que ele está inserido, que o maltrata, o mata por dentro. O jovem tinha pessoas de confiança, mas, tinha vergonha de falar certas coisas, de expor certos pontos. Como um livro aberto ele era, entretanto, as páginas que ele julgava lhe manchar e manchar sua história foram retiradas. Isso não tinha haver com ele. Tinha haver com os monstros.

Dois monstros terríveis, um masculino e outro feminino. Ambos tão terríveis… O jovem estava cansado deles, já tinha 19 anos os suportando. Nos primeiros anos era só amor, mas, aos poucos, a realidade vai se mostrando e os atos da peça da vida vão acontecendo. O jovem estava exausto.

Todos os dias os monstros brigavam. Ambos se achavam grandes senhores, e, apesar de não compactuarem com o fascista na presidência, às vezes pareciam com os seguidores deles. Nenhum dos monstros dava o braço a torcer. Ambos pareciam de ferro, ambos desagradáveis. O jovem na infância se sentia bem e seguro com eles. Só que o tempo foi passando, e os monstros foram ficando mais ferozes. O jovem passou a se sentir mal ao lado dos monstros, como se eles lhe fossem desconhecidos. Na verdade, era pior. Porque eram muito próximos. E, todos sabem o quanto a proximidade com pessoas tóxicas mata.

Pra onde eu corro?
Com os fones eu esqueço?
Eu falo ou permaneço no silêncio?
Os monstros querem me escutar?
Sinto que vou morrer
Sinto que isso vai me matar

O jovem saía do cômodo quando o confronto dos monstros iniciava. Nem sempre esse confronto se limitava ao campo verbal. E todas as vezes o jovem se culpava… Como se não bastasse a culpa que o jovem sentia, por achar que a sua existência gerava aquilo, os monstros reverberavam isso ao descontar a raiva e o conflito no jovem. Eles eram grosseiros, sem paciência e nada do que o jovem fazia parecia ser o suficiente. 

Ele corria
De um cômodo
Ao outro
Quando tudo começava
Pra onde eu corro?
Com quem eu falo?
Ele levava a sua irmã
Porque sabia
Pela experiência que tinha
O quão horrível era
estar em um ambiente não saudável

O jovem fora ensinado a ter medo de voar. Havia tantas correntes e mordaças em seu entorno. O jovem ficava em silêncio. Sua opinião nunca pareceu ser desejada. O jovem estava mal. O jovem estava mal. Ele estava exausto. Na vez em que tentará falar com os monstros, explicar como aquilo lhe aflingia, um deboche foi o que teve como resposta. E, um belo convite para caminhar pela rua sem comida e sem nada. Suas roupas seriam todas jogadas fora.

O jovem… o jovem chorava. Quando não conseguia, ou não podia chorar pra fora, o seu corpo se contorcia. Ele sentava no chão frio do quarto. Se abraçava. E os calafrios vinham. O jovem fora amado. O jovem era amado. O jovem tinha amigos, tinha pessoas que se importavam com ele. E, que não sabiam. Não sabiam. Porque ninguém haveria de saber. Afinal, ninguém poderia resolver. Haveria algum dia isso de se resolver?

O jovem não sabia. Ele não sabia… Só sabia que queria distância. Distância daquele cenário. Ao lado dos monstros ele era uma pessoa, e ao lado de quem o amava ele era outra. As vezes quando estava muito cheio, e a raiva o retirava do torpor e da mordaça, o jovem era rude. Ele era cruel com as palavras. Ele as jogava fora pra ver se conseguia calar os monstros. Mas, ñ dava certo. Certa vez foi convidado a se meter no seu lugar. "Qual é o meu lugar?". Uma coisa era certa, a melhor saída era a saída.

O jovem não queria ser um monstro. O jovem não queria morrer por conta dos monstros. Ele estava tão… exausto. Trancado no quarto, sentindo tantos sentimentos que era capaz de explodir. As vozes negativas reverberando, e os dois monstros se transformando em vários monstros. O jovem chorou, chorou muito… O jovem estava mal. Todavia, ele tinha um complexo de Marilyn Monroe. Que o permitia conseguir sorrir e dizer: "está tudo bem". Nada estava bem. Tudo iria ficar bem. O jovem não viveria ali pra sempre, e sempre se lembrava disso. E, quando precisasse contar, ele contaria para si os infortúnios. Como sempre fora. Ele suportaria.

Com quem eu falo
na hora em que os monstros gritam?
Quem eu devo chamar
quando suportá-los parecer impossível?
Quem escutará
um jovem falando de seus monstros?

Pra onde correr? (pro quarto)
Com quem falar?
Comigo.



Victor dos Anjos

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