Espelhos (da série Das cinzas a renascença)


Acordo. 

Estou sentado sobre um chão de areia; percebo isso pelo contato da minha mão com o solo. Minha vista encontra-se embaçada, devido a sonolência. Há um estranho vazio na minha mente, e uma sensação de um ciclo, de um determinado aprendizado, que está chegando ao fim.

Finalmente consigo enxergar o meu entorno. Há água por todo lado, a maré está calma e pelo visto, estou em uma ilha. Estou seminu e descalço. É noite, e uma lua cheia brilha em um céu limpo e estrelado. 

Permaneço sentado por uns minutos. Nesse tempo, mexo a cabeça de um lado para o outro. Sinto que há algo que eu deveria lembrar, ou seria algo que eu deveria esquecer, ou alguém que eu deveria encontrar. 

Avisto uma criatura voando no céu, não consigo distinguir o que seja. Mas, ela é linda, ou talvez seja a luz da lua. Afinal, eu só vejo a sua forma cortando o céu.

Ouço passos atrás de mim, e há uma enorme criatura de 4 patas, com uma juba dourada e olhos vermelhos me encarando. Não aparenta desejar me atacar. Porém, seus olhos vermelhos estão brilhando, e estão fixados em mim. Por estranho que pareça, sinto uma familiaridade com esse ser, sinto como se nossas essências proviessem da mesma fonte, como se um elo nos ligasse. Um elo que talvez eu esquecera enquanto estava sob efeito daquilo que não consigo lembrar.

Ele avança cautelosamente com seus olhos poderosos, há um poder emanando dali. Fico onde estou. Eu desejo a reconexão. Não há lutas, só os cautelosos passos da criatura. E, quando sinto que há proximidade o suficiente para eu tocá-la, ela desaparece sob meus olhos. Talvez eu esteja sonhando, penso.

Mormente, não há sonho. Pois quando levanto-me e olho meu reflexo na água, meus olhos estão vermelhos, e meu cabelo está dourado. Fora as estranhas marcas de garras que surgem pelo meu corpo.


Deixo meus pés submersos na beira do mar, sinto a força do oceano e sinto as marcas em mim. Não sei o que está acontecendo, entretanto, sinto que não parou. E, quando avisto algo se movendo na água, minha hipótese cai em um mar de certezas.

Num piscar de olhos, aquilo que eu havia avistado ao longe, estava na minha frente. Não era uma criatura que deveria estar na água. Comumente, rasteja na terra. Entretanto, como essa noite não é uma noite comum, eu abraço o desconhecido e o novo. Permito-me.

A criatura tem a pele escura e brilhante, suas presas estão próximas do meu rosto. Não aparenta respirar, e seus olhos me entorpecem ao ponto de eu não conseguir descrevê-los. Só sei que seu corpo é extenso, e ela o está enrolando em mim. É estranho, pois não me sinto sufocado, e não sinto medo. Tudo que consigo sentir é vergonha... E um breve arrependimento... Mas sinto que aprendi... E o aprendizado é o que importa. A criatura se funde em mim, e em minha perna surge uma enorme tatuagem, que faz parecer que há uma cobra se enrolando em minha perna.


O céu começa a nublar, e a Lua fica submersa nas nuvens. Uma neblina também cai sobre a ilha, e um arrepio perpassa o meu corpo. Saio da beira da água, e retorno a areia. Mas não há local onde eu possa me esconder. 

Algo no meu íntimo me mantém em estado de alerta. Escuto um som próximo de mim, como se algo viesse a mim. Então, visualizo um par de olhos escarlate em meio a névoa. Há algo naquele olhar, sinto a minha alma sendo atingida por ele.

Fecho meus olhos.

De repente, um silêncio súbito cai no ambiente. Abro meus olhos. Há muita neblina, não consigo distinguir onde estou, o céu é uma escuridão infinita, e também há... Espelhos. Muitos espelhos ao meu redor, e estou em cada um deles. Várias momentos, várias faces minhas... E eu me sinto tão distante delas. Como se eu estivesse distante de mim...

CRAC

Um dos espelhos se quebra. E os estilhaços vem em minha direção. Tudo é muito estranho, e rápido. Primeiro que não corro, e os estilhaços ao me alcançarem perfuram a minha pele de forma brutal... Dor... Dor... 

Seguindo o exemplo do espelho anterior, os outros estranhamente se partem e os cacos vindo em minha direção. Vejo meu sangue banhando os estilhaços, sinto a minha alma abraçando aqueles cacos. Afinal, aqueles cacos sou eu, partes que outrora estiveram em mim eu havia afastado, e me distanciado de mim. Cada pedaço dos espelhos que atravessava o meu corpo era uma reconexão... Um retorno... E estilhaços foram me atravessando sem cessar...

Caio de joelhos. As mãos submersas na água, e tenho a impressão de que nunca deixei a ilha. Ergo a cabeça, os olhos escarlates ainda estão lá. Fitando-me. Há uma força neles...

A criatura, dona desses olhos profundos,  levanta voo, e com um bater de asas afasta a neblina. Do seu nariz começa a sair fumaça, e da sua boca saem labaredas de fogo em minha direção. O fogo me atinge, e sou consumido pelas chamas. A marca da serpente em minha perna arde... Minha pele velha se esvai, as chamas purificam o meu corpo...

Ao final, sinto-me revigorado...

Das cinzas a renascença
Do oceano a cura
Das lições de mamãe as precauções
Não tente florescer em um local tão árido
E nos espelhos a verdade
Nos espelhos, o meu reencontro comigo.




                                                           Victor dos Anjos

Twitter e Instagram: @poesiadosanjos

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