Não Floresça (da série "Das cinzas a renascença")


A terra era estéril e profana. Dunas de areia, sol escaldante, e meus pingos de suor marcando a areia. O deserto me maltratava. Mas antes ali não fora tão árido, não fora tão quente, não fora tão mortal. Outrora ali, pelo menos a mim, tinha sido um paraíso.

"Mas eu não pequei, então por quê estou no inferno?"

Continuei minha peregrinação, seguindo minhas memórias. Mas não só elas, também havia um ser que alimentava a esperança de encontrar algo naquela vastidão de areia. Ele tinha lábia, penetrava no meu consciente e me motivava a caminhar pelo nada.

Peregrinei...
Peregrinei...
"Cadê o Oásis que outrora vi?"....
Peregrinei...
e... Areia!

Apenas dunas de areia.
E fui tentando me fixar ali.
Fui me acostumando com o que não deveria.
Fui me fixando ali.

Eu sabia que poderia sair dali, sabia que poderia ir para longe. Para uma zona segura. Mas permaneci naquelas verdades de areia, que a cada sopro do vento eram alteradas.

Fixei minhas raízes...

"Eu consigo! Eu posso florescer aqui!"

...

"Não floresça Vic! Não floresça!"

...

Como sempre ignorei... E floresci. Não que a terra fosse fértil, pois era um deserto. Creio que eu mesmo me nutri. Uma espécie de autotrofia que salvou minha vida, enquanto eu me destruía.

...

Então eu murchei, ou então, a cada verdade que se moldava com a areia, fui percebendo as mentiras em que eu tinha mergulhado.

Corri para longe do deserto
Corri para longe das suas mentiras
Afastei de mim a minha parte insignificante que buscava constantemente por você
...

Não floresça! Se afaste!


Victor dos Anjos

Twitter e Instagram: @poesiadosanjos

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